Todas as lembranças guardadas no vazio.
Pela janela do quinto andar avistou guarda-chuvas em meio às
esperanças perdidas. Não conseguia ver os olhos do senhor de casaco azul, mas
pensava neles como olhos tristes de amarguras gritantes. A mulher, que
aparentava estar com quarenta anos, atravessou a rua correndo entre os carros e
parou na calçada como se lembrasse que não adiantava se apressar. Duas meninas
de mãos dadas passaram pela porta principal e ela as imaginou com os mesmos
olhos tristes do senhor, pensou que talvez os seus próprios estivessem tão
tristes a ponto de não mais enxergar. Olhou para sua própria janela e sentiu
que ali nada mais seria igual. Imaginou outros tempos onde sob a vista às poças
de água refletiam raios de sol e mesmo do lado de dentro os olhos não eram tão
tristes assim. Alguém abriu a porta e ela sentiu o cheiro de comida
recém-tirada do forno, olhou para o rapaz e pensou se ele seria uma daquelas
pessoas que os vizinhos dizem que nunca viram sorrir, nem para as crianças e
concluiu que sim já que ele estava por ali há tanto tempo, todas as noites. Mas
ela mesmo estava ali o suficiente para sentir aquela tristeza que vai da pele
aos ossos. Cogitou voltar pra casa um dia inteiro, mas no instante seguinte
sabia que não faria isso. Lembrou quanto tempo passou para que pudesse entender
que a vida levou com ela vestígios de felicidade mal aproveitados.
Fechou os olhos e mesmo em seus sonhos enxergou os mesmos
olhos tristes de todas as pessoas e os seus próprios que já não mais avistavam os raios de sol refletidos em suas
amarguras.
(Renata Souza)

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