segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013




Os dias seguem se derramando sobre a Terra.
Sua cama está esticada e as lembranças de uma vida inteira transitando pelo universo.
Ainda to aprendendo, dia após dia, que somos reféns da inconstância do tempo. Somos sempre partida, abandonos e recomeços.  
Não vou dizer que tem sido mais fácil.  Não vou dizer que o sorriso ainda sai igual.  Um pedaço de mim, do que eu fui, foi embora com você, assim como um grande pedaço do que você foi está aqui em mim.
Eu ainda olho para o céu, pra sua cama, pra esse buraco negro que se abriu bem no meio do meu peito, esperando alguma resposta, algum sinal que alivie essa sensação de vazio. Imagino o tempo levando todos os dias e anos e todos nós, até que tudo se torne um pontinho no universo do que foi um dia.  
Guardo em mim as ilusões que a gente cria. Penso que você está bem, que está em um lugar melhor e que ainda olha por mim. Preciso acreditar, preciso te sentir aqui, preciso saber que dentre tantas coisas que o tempo leva embora, a nossa alma apenas muda de lugar no universo.  E carrego comigo a esperança de te reencontrar um dia pra gente conversar sobre todas essas ideias e você me dizer o que se passou do lado de lá. 
                                                                     (Renata Souza) 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013



A gente já nasceu com conhecimento de causa. Já enxergava de longe a intolerância eloquente tomando conta da atmosfera.  A gente já sabia que tudo poderia ser um tiro no escuro. Tentava se agarrar a todos os laços pra sentir a ilusão da segurança em ser compreendido.  A gente pula de precipícios com a garantia do para-quedas nos sustentar antes do choque com a realidade. Nós inventamos profecias diárias para nos convencer que a vida não é essa coisa sem graça caminhando por aí. Nossa essência carrega nossa missão, que trás junto com ela um nó na garganta que abre os olhos e cega, permanentemente.
Nós somos os que sempre acreditam em alguma coisa simplesmente pra não enlouquecer em um mundo de doentes.
Nós seríamos capazes de qualquer coisa que desse garantia que o mundo não vai ser capaz de matar os olhos de esperanças em uma tarde de inverno.
Nós acordamos cedo demais. Andamos por aí vidrados em qualquer coisa que não seja a verdade alheia. Carregamos no peito a bandeira estendida de quem acredita em outro final.
Lutamos com a covardia em frente ao espelho todos os dias pra não se deixar levar. E queremos em troca o gozo da esperança, da crença em uma realidade ao avesso. 
                                                                                 (Renata Souza)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013



Todas as lembranças guardadas no vazio.
Pela janela do quinto andar avistou guarda-chuvas em meio às esperanças perdidas. Não conseguia ver os olhos do senhor de casaco azul, mas pensava neles como olhos tristes de amarguras gritantes. A mulher, que aparentava estar com quarenta anos, atravessou a rua correndo entre os carros e parou na calçada como se lembrasse que não adiantava se apressar. Duas meninas de mãos dadas passaram pela porta principal e ela as imaginou com os mesmos olhos tristes do senhor, pensou que talvez os seus próprios estivessem tão tristes a ponto de não mais enxergar. Olhou para sua própria janela e sentiu que ali nada mais seria igual. Imaginou outros tempos onde sob a vista às poças de água refletiam raios de sol e mesmo do lado de dentro os olhos não eram tão tristes assim. Alguém abriu a porta e ela sentiu o cheiro de comida recém-tirada do forno, olhou para o rapaz e pensou se ele seria uma daquelas pessoas que os vizinhos dizem que nunca viram sorrir, nem para as crianças e concluiu que sim já que ele estava por ali há tanto tempo, todas as noites. Mas ela mesmo estava ali o suficiente para sentir aquela tristeza que vai da pele aos ossos. Cogitou voltar pra casa um dia inteiro, mas no instante seguinte sabia que não faria isso. Lembrou quanto tempo passou para que pudesse entender que a vida levou com ela vestígios de felicidade mal aproveitados.
Fechou os olhos e mesmo em seus sonhos enxergou os mesmos olhos tristes de todas as pessoas e os seus próprios que já não mais  avistavam os raios de sol refletidos em suas amarguras.
                                                                                                                                                             
                                                                                                                                  (Renata Souza)